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Vivemos uma época de profundas e aceleradas transformações, sem precedentes na história. Quase tudo se altera na economia, na geografia, na sociedade e na cultura em escala planetária, afetando todas as esferas da nossa existência cotidiana, individual e coletiva: trabalho, consumo, lazer, moradia, interação com a natureza, locomoção, comunicação, saúde, educação, imaginário, formas de poder, relações sociais e afetivas, etc. O motor dessas mudanças, que geram ao mesmo tempo progresso, destruição e desorientação, é a revolução tecnológica desencadeada desde as três ou quatro últimas décadas.
Nessas circunstâncias, há quem pense que os saberes clássicos – Humanidades, Artes, Ciências Físicas e Naturais, assim compartimentados desde o século XIX – tenham se tornado obsoletos e incapazes de explicar a realidade atual ou projetar o futuro. E que no lugar deles, as novas especialidades das tecno­ciências, movidas por cientistas de cérebro eletrônico, seriam o bastante para gerar cada vez mais inteligência, riqueza, sofisticação, conforto e diversão. No entanto, as evidências demonstram que tais áreas não podem prescindir desses conhecimentos matrizes, sob o risco de se esgotarem numa produção meramente mercantil, padronizada, descartável e destrutiva. Somente com a reflexão crítica, o rigor e a criatividade das Humanidades, das Ciências e das Artes será possível produzir ciência e tecnologia propiciadoras de padrões de vida equilibrados, socialmente justos e moralmente éticos.
Mas, afinal, o que as Humanidades, em particular, com suas raízes seculares e aparente monotonia, podem dizer às novas gerações de estudantes formadas (e até conformadas) num mundo de velozes gigabytes, desapegado no tempo e no espaço? Coisas muito triviais, talvez, embora de grande complexidade, como por exemplo: que as formas de vida social, econômica, política, cultural e subjetiva nem sempre foram as mesmas na história, havendo, portanto, lugar para o especulação de futuros diferentes; que podemos buscar outros valores para a existência individual ou coletiva; que os próprios modelos de ciência e técnica não são eternos. E, sobretudo, que ao considerarmos a relação entre o indivíduo e seus produtos, especialmente tecnológicos, é permitido indagar: quem é mesmo dono de quem?
Estas e outras questões supostamente simples – diga-se de passagem: é desse tipo de curiosidade banal que se alimentam todas as ciências – são estimuladas por áreas de conhecimento como a História, a Geografia, a Sociologia, a Ciência Política, a Antropologia, a Psicologia, a Literatura, as Artes e as Ciências Humanas aplicadas, como a Administração e a Economia, para citar algumas. Cada uma delas as formula e responde de modo peculiar, conforme seus -próprios métodos de investigação, ainda que cada vez mais perpassadas pela perspectiva transdisciplinar. Perspectiva que tende também a envolver as demais ciências, tecnologias e artes, pois, no fim das contas, todos os conhecimentos são humanos, demasiadamente humanos.

Antonio Celso Ferreira é graduado em História pela Universidade de Brasília, mestre em História Econômica e doutor em História Social pela USP. É professor titular de História do Brasil Contemporâneo pela Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, Câmpus de Assis. Desenvolve pesquisas, orienta dissertações e teses e tem trabalhos publicados sobre a história e a historiografia do Estado de São Paulo e a relação entre a história e a literatura. Coordena atualmente o Cedem – Centro de Documentação e Memória da Unesp.