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Quem está prestes a realizar o exame de vestibular sabe que nem sempre a carreira sonhada pode estar na cidade onde o candidato mora. Mudar-se, então, é a alternativa que muitos têm de encarar. Se trocar de cidade, ou até de estado, e ficar longe dos pais, dos irmãos e dos amigos parece algo doloroso demais, o que se ganha ao apostar nessa troca é, segundo os próprios estudantes, recompensador. Seja em quitinetes, repúblicas, pensões ou na moradia estudantil, a independência e o convívio com outros alunos são fontes riquíssimas de experiência.
É isso o que afirmam os moradores de umas das poucas repúblicas mistas da Unesp de Sorocaba. Criada há pouco mais de um ano, a república “Baú” abriga três homens e duas mulheres, além de uma cadela vira-lata, carinhosamente chamada de Tonica. Eles são estudantes da quarta turma de Engenharia Ambiental e convivem em torno de alguns valores que a vida longe dos pais, e em conjunto com outros estudantes, traz: independência, responsabilidade, liberdade de escolha, novas amizades e, principalmente, experiência de vida.
“Aprendemos a conviver com pessoas de lugares diferentes, criadas de modos igualmente diferentes. Adquirimos maior senso de responsabilidade e iniciativa para resolver problemas”, afirma Leonardo Gouveia de Souto, de 20 anos, que veio de Belo Horizonte, MG, para estudar em Sorocaba.
Leonardo divide as tarefas da casa com os mineiros Camila Silva Franco, 21, de Lavras, e Renan Fernandes Moraes, 23 anos, de Itajubá. Um outro paulistano, Gabriel Toledo Piza, 22, e Vanessa Alves Mantovani, 22, oriunda de Tietê (SP), completam a república.

Divisão de tarefas
O mesmo acontece na república carinhosamente chamada de “Pulero”, que reúne alunos da Faculdade de Engenharia em Ilha Solteira. A casa possui cinco quartos, piscina e churrasqueira. “Somos seis moradores e a responsabilidade pelo pagamento das contas de luz, telefone e água é algo estipulado desde o começo do semestre”, diz Francisco Molina, 26, estudante do último ano do curso de Engenharia Mecânica.
Cada morador possui uma tarefa. Tiago Carregari, 23, estudante do quinto ano de Agronomia, por exemplo, verifica a necessidade de reposição dos produtos da casa que estão em falta; Victor Hugo, 22, do quarto ano do curso de Engenharia Mecânica, é responsável pelas contas de água e luz; e Rafael Tim, 22, do terceiro ano de Engenharia Elétrica, zela pela conta de telefone. Rafael Yokoo, 25, e Marcel Mesquita, 23, respectivamente do terceiro e quinto ano de Engenharia Mecânica, são responsáveis pelas outras tarefas.

Responsabilidade e liberdade
Em Itapeva, a estudante Cibele Ferraz Barbosa, 23, do curso de Engenharia Industrial Madeireira, destaca a necessidade de saber que a liberdade é acompanhada da responsabilidade. “Morar em república significou para mim uma independência. A partir de então, tive que decidir o que comer, até que horas devia ouvir música ou ficar dormindo sem qualquer cobrança externa dessas decisões”, diz.
Contudo, ela descobriu que se ninguém paga a conta na hora certa, a água é cortada. “A gente aprende a economizar na luz, tomando banhos mais rápidos, aprende a se virar e resolver os problemas sozinha, sem poder – muitas vezes – pedir para que os pais o façam”, completa Cibele.
Ela veio da cidade de Itararé, SP, e mora com mais três amigas, todas do mesmo curso: Estefhani Catherine Rezende, 22, de Taquarituba, SP, Letícia Cubas Lozano, 22, de São Bernardo do Campo, SP, e Míriam Kazue Morioka, 21, de Itaporanga, SP. Elas vivem na república “Pode Vir”, onde um papel na porta da entrada de serviço distribui as tarefas da semana. “Na cozinha a gente se reveza e limpa a louça todos os dias. A sala, uma vez por semana. Os quartos, cada moradora limpa o seu. O banheiro é limpo uma vez por semana, seguindo a escala. Já as contas são divididas e a última moradora a dar o dinheiro é responsável por efetuar o pagamento”, conta Letícia.

Economia e responsabilidade ambiental
Também se aprende a economizar nas repúblicas. Para diminuir as despesas de cada um, e ainda ter um pouco mais de conforto, nove estudantes do curso de Administração de Tupã decidiram unir duas repúblicas, e formaram a “Acapulco”. Eles moram em uma casa com uma sala de dois ambientes, seis quartos, sete banheiros, duas cozinhas, duas lavanderias, duas garagens e uma área de lazer com churrasqueira e piscina.
Para manter toda essa estrutura habitável, eles contrataram duas empregadas que trabalham seis dias na semana para manter a organização e a limpeza da casa. “Com a divisão das despesas entre os nove integrantes da república, foi possível contratar as empregadas, diminuindo nossas responsabilidades e, o mais importante, evitando conflitos, que sempre surgem devido à falta de limpeza e organização do espaço”, justifica Everton Pinheiro, 22.
Everton é da cidade de Tatuí, SP, e está no segundo ano do curso. Ele divide a casa e a sala de aula com os amigos Victor Aguiar Torcato, 21, de Araraquara, SP, Marcel Itokazu, 20, de Delfinópolis, MG, Guilherme Ribão, 20, de Catanduva, SP, e Leandro Guedes de Aguiar, 19, e Andrei Yuri, 20, ambos de Bauru, SP. Também residem na casa os bichos, Thales Manfrin Martins, 18, de Catanduva, Renato Pollato Matsumoto, 19 anos, de Fernandópolis, SP, e Vitor Elídio dos Santos, 18, de São José do Rio Preto, SP.
Para diminuir as despesas, os moradores da “Baú” fizeram uma horta no quintal da casa. “Vislumbramos a possibilidade de melhor aproveitar um espaço que antes mais causava trabalho, com o mato que crescia à vontade”, conta Leonardo. A encorajadora do projeto foi Vanessa.
Ela ainda deu a idéia de se construir uma minicomposteira, onde os restos de comida poderiam servir de adubo para a própria horta. “Montamos essa minicomposteira para ser capaz de dar conta do resíduo que nós produzimos. A parte reciclável do lixo foi enviada para uma cooperativa próxima. Os restos de comida cozida vão para o lixo comum. E os restos de comida crua e cascas de alimentos, por exemplo, vão para a composteira”, explica a idealizadora do projeto.