

Moacyr Scliar
Viver, não tenham dúvida acerca disso, é escolher. A vida nos coloca diante de opções e dilemas; a vida não é uma estrada reta, uma freeway que nos leva diretamente ao nosso destino, exigindo apenas que não ultrapassemos certa velocidade. Não, a vida é antes uma rota tortuosa e, mais, cheia de encruzilhadas.
Uma dessas encruzilhadas é a escolha profissional. Um problema que antigamente não existia. Quando todo mundo vivia no campo, o menino simplesmente não tinha escolha: a partir de certa idade era obrigação dele ajudar o pai na lavoura. A maioria considerava isso destino, algo para ser feito sem queixas. As coisas mudaram, e vamos dizer desde logo, mudaram para melhor. Os jovens podem estudar mais tempo, e, se têm condições para isso, podem fazer escolhas relacionadas com carreiras universitárias. São muitas, estas carreiras, e isto também acaba virando problema. Falta de opções é problema, excesso de opções também.
Tomem o meu caso. Minha infância foi marcada por duas coisas: primeiro, eu gostava de ler e de escrever histórias. Vocês vão dizer: bem, mas então o seu destino estava definido. Você poderia tornar-se escritor, ou jornalista, ou professor de literatura. De fato, eu poderia fazer isso. Mas eu tinha um fascínio muito grande por doença e por medicina. E resolvi optar pelas duas coisas. Formei-me em medicina, especializei-me em saúde pública e continuei escrevendo. Deu trabalho? Deu muito trabalho. Tive de aprender a me organizar, tive de sacrificar o lazer, as férias. Mas valeu a pena, disso não tenho dúvida. Passei a fazer parte de uma categoria que não é pequena, a dos médicos-escritores.
Decisões são coisas complexas, sobretudo decisões profissionais. Aí vale a famosa frase de Shakespeare em Hamlet: “E isto acima de tudo: sê fiel a ti mesmo. Assim, e tão naturalmente como à noite se segue o dia, não serás falso para com ninguém.” Ser fiel a si próprio é a primeira condição para uma boa carreira profissional (e para tudo na vida). Às vezes o jovem se sente atrapalhado tentando descobrir o que significa ser fiel a si próprio; e talvez precise de auxílio para isso, dos pais ou de outras pessoas.
Mas uma coisa precisa ser dita: decisões não são irreversíveis. Pessoas mudam de idéia, e isto é absolutamente normal. É assim que jovens mudam de curso. Cabem duas advertências: em primeiro lugar, o curso não é a profissão. Na faculdade de medicina em que estudei, os dois primeiros anos eram muito difíceis e às vezes bem chatos. Felizmente a gente sabia, por nossos colegas e por médicos formados, que aquilo não era a profissão; a profissão viria depois. Segunda coisa: as profissões hoje são muito amplas, muito complexas, e lá pelas tantas acabam se comunicando. Tenho um amigo que se formou em jornalismo, mas descobriu que gostava mesmo de medicina. Especializou-se então em jornalismo médico e está muito contente.
A auto-realização profissional é uma casa de muitas portas. Pode-se entrar por qualquer uma delas e até mesmo pelas janelas. Uma vez lá dentro, a gente descobre o que fazer. A gente descobre como transformar a atividade profissional na expressão daquilo que temos de melhor.
Moacyr Scliar é escritor, autor de 75 obras, várias traduzidas e premiadas. Colabora em diversos órgãos da imprensa e é membro da Academia Brasileira de Letras. É médico, especialista em saúde pública e professor universitário. |